Author: vitorleal

Alguns filósofos tinham a ideia de que o ser humano não erra apenas por falta de informação, mas por nível de consciência. Saber o que é correto não basta. É preciso estar consciente o suficiente para agir de acordo com esse saber. 

Todos nós sabemos, de certa forma, o que precisamos fazer para emagrecer, melhorar em uma modalidade de esporte, passar em uma prova, etc. Saber o que fazer e, de fato, fazer, requer sofisticação da consciência. 

Por isso, filósofos como Sócrates, Platão, Sêneca e Marco Aurélio deixaram um verdadeiro mapa de evolução da consciência humana. Não como teoria abstrata, mas como um manual prático de amadurecimento interior, cujos efeitos se refletem diretamente na qualidade da vida individual e coletiva. 

Uma forma didática de compreender isso é por meio de quatro níveis de consciência: inconsciente, subconsciente, consciência e supraconsciência. Todos esses níveis coexistem dentro de nós. O importante é qual tem o governo das nossas decisões. 

O Inconsciente: quando o impulso governa 

No nível mais básico, o ser humano age movido por impulsos, emoções primárias, medos e reações automáticas. Aqui, não escolhemos, reagimos. A raiva explode, o desejo exige satisfação imediata, a dor pede fuga. Não há governo interno, apenas reações, muitas vezes explosivas e infantis. 

Os estoicos foram implacáveis com esse estado. Sêneca dizia que o homem escravizado pelas paixões não é livre, mesmo quando se julga poderoso. Marco Aurélio reforçava que os acontecimentos externos não nos ferem; o que nos fere é o juízo que fazemos deles. 

A elevação desse nível começa quando o indivíduo aprende a pausar e observar. Reconhecer o impulso antes de obedecê-lo. Enquanto isso não ocorre, a vida é vivida como uma sucessão de estímulos e reações, sem direção consciente, sem controle, uma pessoa “sujeita” e refém do externo. 

2. O Subconsciente: o poder dos hábitos 

Ao subir um degrau, o domínio deixa de ser do impulso bruto e passa a ser dos hábitos, crenças e padrões aprendidos. Aqui, o perigo não é a explosão emocional, mas a repetição automática. A pessoa vive no “sempre fui assim”, sem pensamento crítico, repetindo erros e padrões antigos, mas com discursos confortáveis, cada vez mais elaborados para justificá-los. 

Sêneca insistia que o caráter é moldado pela repetição diária. Marco Aurélio via a prática constante como o verdadeiro treino da virtude. Não é o discurso que nos transforma, mas o hábito que nos propomos a repetir, mesmo sem ninguém precisar mandar. 

Um grande ponto de atenção deve ser observado nesse nível. É aqui que muitos comportamentos passam a parecer normais, mesmo quando revelam uma vida estagnada. A rotina não é escolhida, ela é herdada. E o indivíduo começa a confundir costume com identidade. E aí estamos a um passo de jogarmos nossa vida no lixo.  

A fuga disfarçada de prazer 

No decorrer da vida adulta, certos comportamentos deixam de ser escolhas e passam a ser refúgios existenciais de quem está em sofrimento invisível. O vício, o fanatismo esportivo e a preguiça disfarçada de apatia não surgem como celebração da vida, mas como anestesia contra uma vida miserável, sentida como pequena, frustrante ou insuportável. 

O álcool e as “drogas recreativas”, quase sempre associadas a celebrações infinitas, por exemplo, não são buscados apenas pela euforia e leveza, mas pelo silêncio e anestesia. Isso alivia, cala, suprime, ainda que por algumas horas, o peso da autoconsciência da vida adulta, que vem implacável, trazendo a sensação de fracasso, a comparação inevitável das redes sociais, a frustração acumulada com o passar dos anos e as expectativas não atendidas de quem está por perto. Não é a sensação ou o prazer que atrai, mas a pausa temporária da própria existência falida e apavorante. 

A busca por atalhos vai além: vende a fantasia de redenção sem esforço ou evolução. Não oferece apenas dinheiro, mas a promessa simbólica de que tudo pode mudar sem que nada precise ser enfrentado. É a esperança infantil de que o acaso resolverá. 

O fanatismo esportivo, ou pior, o político, cumpre outra função: empresta identidade pronta a quem não construiu a própria. A vitória é esperada e sentida como pessoal, a derrota é como uma tragédia íntima, ainda que nenhuma das duas tenha sido realmente vivida. O ser escravizado de si mesmo não age, não pratica, não constrói, ele apenas torce por “coisas”. 

Já a preguiça em tudo, travestida de “vida simples” ou “vida raiz”, é a forma mais silenciosa de fuga. Não é descanso, é desistência por medo de ter que se empenhar em algo, nem que seja uma conversa para além do desempenho de times e partidos. É uma recusa de se medir com o mundo, de falhar, de tentar, de descobrir o sabor da sua própria apatia que agora compromete toda a sua existência perante os adultos. 

Esses comportamentos são diferentes na forma, mas idênticos na essência. Todos funcionam como analgésicos da consciência. Não elevam, não transformam, apenas tornam a existência suportável por mais um dia fora do “trem da vida”, que passa ao lado a todo vapor. Quando o efeito dessa “dipirona” acaba, a vida retorna exatamente ao mesmo lugar, quando não, em um estado um pouco pior. 

Nesse ponto, a miséria deixa de ser apenas material ou emocional e passa a ser existencial. Não se sofre por falta de conforto, mas por falta de direção. Quando a vida não aponta para lugar algum, qualquer distração parece ser uma tábua de salvação. 

3. A Consciência: o despertar da razão 

Aqui, surge a razão deliberada. O indivíduo pensa, avalia, escolhe. É um avanço real, mas traz um risco sutil: a racionalização da própria estagnação. Aqui, a inteligência e a super influência das informações instantâneas das redes sociais aprendem a justificar o que deveriam corrigir. 

É contra isso que Sócrates ergue seu método. O “conhece-te a ti mesmo” é uma exigência de honestidade intelectual. Questionar a si próprio, refletir sobre contradições internas, desmontar narrativas confortáveis são atitudes que nem todos estão preparados para encarar. 

Platão defendia que a razão deveria governar os desejos e impulsos como um bom governante governa a cidade. Quando a razão é serva do ego e do orgulho, ela se torna cúmplice do erro. Quando serve à verdade, torna-se um instrumento de libertação. 

4. A Supraconsciência: quando a vida ganha outras cores 

Há um ponto em que a existência muda de textura. Não porque o mundo se torna mais fácil, mas porque finalmente assumimos o comando e ampliamos a visão. 

Na supraconsciência, a vida deixa de ser empurrada por impulsos, arrastada por hábitos ou defendida por justificativas inteligentes. Ela passa a ser conduzida. Já não agimos porque é conveniente, prazeroso ou socialmente aceitável, mas porque é correto. Mesmo quando ninguém observa. Mesmo quando há custo. Mesmo quando dói. 

Aqui, algo silencioso acontece: o ruído interno diminui. As fugas perdem apelo. As distrações já não são necessárias para suportar o dia. A vida não precisa mais ser anestesiada, porque agora faz sentido. O sofrimento, quando surge, não é visto como injustiça, mas como parte do preço da dignidade, ou simplesmente, parte da vida acontecendo. 

Nesse nível, não reagimos ao mundo, nos posicionamos diante dele. Não vivemos à espera de sorte, aplausos ou atalhos. Não terceirizamos identidade, responsabilidade ou propósito. 

E é nesse ponto que a vida revela outras cores. Não as cores artificiais do prazer imediato, mas tons mais profundos: clareza, coerência, serenidade e firmeza interior. Uma alegria menos barulhenta e mais estável. Uma liberdade que não depende de circunstâncias externas. 

A evolução da consciência não exige negar os níveis inferiores, mas subordiná-los. Quando o impulso obedece ao hábito, o hábito à razão, e a razão a princípios, passamos a nos governar. 

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